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| Fotografia por Fátima Abreu Ferreira |
sábado, 20 de fevereiro de 2016
A quantas das minhas falhas ensinei o cheiro das borboletas?
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016
Ensaio sobre a cegueira
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016
4.48
domingo, 7 de fevereiro de 2016
Não há mais anjos a abrirem-te miradouros.
Lá fora, as ruas enchem-se de gente. Os turistas levantam as bocas à nostalgia da cidade, os restaurantes gritam fúrias que se colam aos tímpanos, os sem abrigo arrastam-se para os cantos, anunciando o frio que se esconde sob as janelas dos hotéis.
Dentro do escritório, fechas as cortinas e observas-te ao espelho: as rugas escavadas à força dos pequenos abismos, as agulhas diluídas nas artérias, os cabelos caídos como versos maduros no Outono.
40 anos de deserto; de fissuras de carácter e pálpebras enevoadas.
Confortavelmente dormente, dirias.
Não esqueces.
Não esquecerás (nunca) - escreves - enquanto queimas as fotografias que te perseguem, com o fogo lento da tua própria adoração.
Não sabes como continuar, concluis, matando mais um cigarro. O fumo estala-te na garganta como um tiro. Não há mais anjos a abrirem-te miradouros e apenas tu notas a tua ausência.
Inspira.
Fundo.
Como se quisesses mesmo viver.
Quando voltares a abrir os olhos, todo o mundo terá mudado.
Será de noite e as lâmpadas dos teus candeeiros terão deixado de respirar.
Olhar-te-ás, de novo, ao espelho, na procura da luz esbatida de uma polaróide e o fogo terá corrompido o seu abandono.
Restarás,
sozinho,
escuro,
cego
pelo teu próprio reflexo.
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| Nobuyoshi Araki - from the polaroid series Kekkai (2014) |
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016
Folhas de Inverno (ou, "os dias sem ninguém")
que as folhas lhe sussurram
a fome e a sede por trás do poema.
Acontece de noite,
sempre de noite,
esta dolorosa melodia.
Desce
misteriosamente,
como uma vertigem;
ele deita-se, encosta
os ouvidos ao chão
como quem cerra os olhos contra a violência
(é preciso a inocência. desesperadamente a inocência)
e encurva-se no sono.
São então as luas e os insectos,
essas aves nocturnas, nucleares,
que lhe agarram as raízes do cabelo
contra a boca aberta da alucinação.
Radioactivos,
minam-lhe os olhos até aos neurónios;
enriquecem-no;
devastam-no;
comem-lhe o mundo e saem ébrios,
como estrelas nascidas de uma emboscada.
Por dentro,
no espaço mais quente do sangue,
fica a violência do sussurro,
a lenta apropriação do pesadelo
e a misteriosa melodia das folhas de Inverno.
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| Vivian Maier, Central Park, 1954 |
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016
Sleep Deprived
Natural born killer
Os tempos são de saudade, são de ilhas até onde ninguém sabe nadar, de sombras àcidas a galopar os dias que separam a minha mão do teu peito.
E alguém precisa comer as sombras. Alguém precisa morder toda esta morte experimentada.
Caio.
Enrolo-me no guarda-chuva e tropeço nos pés mas, não desisto.Não são as pernas que me levam, é este peito feito incêndio, acostumado ao outro lado do teu olhar.
Talvez sorria. Talvez agradeça a cumplicidade das casas que morrem na janela do comboio. Talvez me retire para dentro dos ossos e adormeça por instantes. Talvez faça qualquer coisa que encha os quilómetros que se suicidam na linha. Qualquer coisa enquanto espero o grito final, o urro angustiado da distância a sangrar nas fissuras dos meus punhos.
Nesse momento, no auge de toda a minha violência, recordar-me-ei que aprendi a suster a respiração e todas as minhas minúsculas angústias, e poderei, finalmente, inspirar.
Profundamente.
Na tua boca.
domingo, 31 de janeiro de 2016
Cortina Vermelha
Algo mudou lá fora.
Tudo cheira a luz e a sombra das coisas despiu-se de melancolias.
Pergunto-te se serei capaz de viver sob este efeito, este filtro simples do teu olhar. Estás deitado sobre a tua janela, sobre as casas a amanhecerem-te nas mãos (ninguém deveria viver tão alto, penso). Respondes: pedes que te deixe matar-me. Que é isso que se faz quando se ama.
E eu sorrio com a perfeição do teu fogo.
Nesse instante, decido: uma destas manhãs lanço âncoras no teu céu e deixo-me ficar a ver-te seres claridade. Talvez me voltes a fazer acreditar na linguagem límpida das palavras, talvez me construas pálpebras de luz, e me lembres que a fuga é possível; que o mundo não é, afinal, apenas este lugar onde nos esbatemos lentamente, como uma memória velha que não encontra lugar nas molduras em cima da cómoda.
Até lá,
deito-me na sombra desta cortina vermelha e espero que os dias me cubram os ombros de pássaros.
Um dia nascer-me-ão as asas dos caminhos até ti.
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| Saul Leiter - Red Courtain |
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
The point of abandonment
domingo, 24 de janeiro de 2016
Aduela
à carne das minhas palavras.
Não há melancolia.
Apenas o silêncio,
incendiando as portas
- sangrentas -
dos nossos olhos.
Juntos,
atravessamos os espíritos da cidade.
A pele
aprendendo a salvação
na loucura da garganta;
as línguas
acordando como facas iluminadas.
Somos o Poema.
A loucura fundamental do sangue.
À nossa volta,
tudo se distancia.
Tudo procura o frio da cegueira,
a morte das estrelas.
Só nós,
pesados de fogo e vísceras,
carregamos qualquer coisa eterna.
Límpida.
Serena.
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| Larry Fink |
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
E desfazia-se a carne, quando o mundo acordava
domingo, 10 de janeiro de 2016
Veneno de Domingo.
desprendi-me da urgência.
Engoli as noites que tornavam
ásperas
as minhas paredes;
deixei-me adormecer na sombra
da poeira que escondia nos cantos.
É Domingo.
Os muros cresceram-me à janela,
no lugar onde vendias
a boca por um incêndio.
Por entre as chuvas de Janeiro,
fizeram-se árvores,
fizeram-se silêncio;
agora, nenhuma luz entra
e nada mais se cumpre.
Nem mesmo a tua solidão.
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| Daido Moriyama |
sábado, 2 de janeiro de 2016
Nova língua
Os dedos.
As mãos movendo-se
por entre as nascentes dos ossos.
Dentro da chuva,
a palavra suplica uma tempestade,
queimadura branca
árdua,
ofegante raíz
na minha garganta.
Lembro-me
(ao longe)
de que sei respirar e
acendo as sombras;
ponho-me a inventar línguas
no desespero
- absoluto -
de ensinar à minha boca
um novo poema.
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| Daido Moriyama |
quinta-feira, 31 de dezembro de 2015
O abandono mais doce
E eis que a vida
se torna um sítio de silêncio;
um sítio calmo,
com as mãos despidas de espanto.
Foi de repente,
como um relâmpago:
um abraço estéril,
um sabor distante,
um cheiro a luz em qualquer lado
e minha boca - tão cheia
de nada para te dizer.
quarta-feira, 30 de dezembro de 2015
A sentimentalização das pedras
Pergunta:
Como morder a pedra
até que sangres o peito?
Resposta (possível):
Esquecendo.
A chuva, no céu da minha boca
Lentamente
uma vaga metàlica
arrefece a noite,
as pàginas cheias
- plenas -
de esquecimento.
No céu da minha boca
começa a chover.
Lembro o tràfego
violento
por entre as costelas alargadas,
vão comércio
das tuas emoções,
e concluo:
não sobrevivemos às estações.
terça-feira, 29 de dezembro de 2015
Raízes
Começo a crescer raízes nos lugares mais inesperados. Os meus olhos insistem em agarrarem-se ao céu. Quando os fecho, sinto o céu a agarrar-se a mim.
Não é bonito.
Sequer lírico.
É, apenas, uma morte diferente.
Meteorologia
domingo, 20 de dezembro de 2015
A noite mais longa
O silêncio é
afinal,
um desígnio simples:
um travo amargo
a comoções sem propósito,
uma espera lenta
por algo horrível
que me encha a boca de pólvora.
Nas mãos,
desponta uma lucidez sem espanto,
sem espuma,
ou redenção possível.
Este é o tempo de sujeições:
escorrego sob a lâmina
e apanho
- como posso -
todos os pedaços de mim.
segunda-feira, 30 de novembro de 2015
Nada mais.
Suja.
O casaco amarrotado no chão do quarto,
despedindo-se da luz
como como um lobo que uiva o som
do próprio sangue.
À medida do tempo, a música saiu-me dos pés
e as chuvas arrastaram-te as margens.
Nada mais existe.
Nem o teu rio incrédulo,
indigente nas minhas mãos,
nem a raiva
da tua tão escura matéria
domingo, 22 de novembro de 2015
Como nascer um beijo
fazendo dos teus lábios
uma colmeia vermelha.
De manhã,
todas as flores terão morrido
à mercê dos nossos dentes.
sábado, 14 de novembro de 2015
"Vou quebrar esta mão do lembrar"
O movimento giratório
das luas em baixo da minha janela
deslocam o gesto hábil
com que te afasto a substância.
Tudo é reflexo, agora;
tudo é débil:
o teu rosto pela metade,
os meus olhos desfocados.
Demasiado tecto,
pouco corpo.
Conjugas a boca
como um verbo no futuro
e ignoras o eco que me nasce
como única hipótese de entendimento.
Amanhã,
olhar-me-ei ao espelho
e nada em mim
conseguirà principiar-te.
(título de Luís Quintais)
sexta-feira, 13 de novembro de 2015
Devagar, devagar - como quem morre.
esquecido por dentro da casa.
Nos olhos,
pesavam-lhe as sìlabas desfocadas;
nas mãos,
a práctica oculta da rotação dos anos.
desaprendido da linguagem
de se pregar ao peito e,
por entre a desarmonia dos ossos,
esticava o braço
para medir a distância
do coração à cabeça.
traziam as feridas
e o rumor de sangue nas asas,
descobria a fórmula da extinção dos dias
e apontava,
em absorvente melancolia,
o violento exercício
de ser abismo
na desarmonia das vísceras.
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| Wild Strawberies - Ingmar Bergman |
sábado, 7 de novembro de 2015
Naufrágio
E quando reparas,
começo a gritar a maré,
ignorante das margens
da nossa lírica vertigem.
Ao longe,
o farol lança-me cordas à coluna aberta enquanto tu,
despenhado no obscuro poema,
fazes justiça ao naufrágio
e procuras,
cego,
as nossas raìzes
na violência das ondas salgadas.
O mar incendeia-te as pàlpebras.
O escuro dobra-se para frente
na procura da luz,
e tu,
animal vergado
no silêncio das tuas laboriosas âncoras, percebes
(tarde demais)
que nenhum dos nòs os dois
aprendeu a ser a ser barco.
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
Realização
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Apontamentos
Apontamento (ou salvação):
pensar-te à exaustão.
transformar a tua espessura em intimidade olvidada.
sábado, 19 de setembro de 2015
Um pálido princípio.
esta força com que fecho a minha boca à tua).
É de manhã nesta casa de sempre.
Os brancos recortam-me
o monólogo nocturno do regresso, e eu
muito quieta,
espero a súbita metamorfose dos animais
que me guardam a cama.
Lá fora,
o mar grita e eu
descubro - em silêncio -
os bolsos cheios de cansaço.
Pesa-me, agarrada aos ossos
como uma nova carne,
a sanguínea arte de te adivinhar o peito:
nenhum homem deveria carregar
tantos abismos.
Incitação à fuga
Fugir à noite que aprendeu a
arder-me junto aos olhos.
Estou sempre de partida - penso;
em perpétuo abandono
de tudo o que me habita.
Num plano recuado da existência
ergo as mãos mortas de raízes:
nada me pertence,
nada ecoa.
Aprendo as várias sombras
dos meus espaços
sem nunca lhes dar nomes
(as palavras carregam segredos
capazes de escavar abismos).
Partir.
Desprender-me
das cortinas dos teus dedos
e encontrar um lugar mais longe
que esta distância de morte no coração.
Ousar chegar,
e arriscar
o não regresso.
terça-feira, 11 de agosto de 2015
O beijo
a boca na boca,
a boca na língua,
a língua na boca;
o beijo do avesso a arrancar a vontade
e os dedos a crescerem
na boca,
na boca da boca,
a boca
tão boca,
tão
-
boca
-
tão,
corpo deitado à procura da boca,
a tua boca
na minha boca
à procura da (minha) boca
tão dentro da tua boca,
tudo à mistura
(como deve ser)
a boca na boca
a boca da boca
no caminho
(simples)
da língua à boca
tão fundo da boca
quando,
por dentro
da (tua) boca
me arrancas
a boca
me comes a boca
e encontras
expectavelmente expectante
a tua
boca.
segunda-feira, 10 de agosto de 2015
Uma espécie de fim
descobri
a gota sombria
na boca que me devorava
as mãos.
Descobri a seiva lenta;
o vazio a fazer-se por dentro
da noite inclinada,
e o tempo
a crescer a vontade
de calar os dedos.
Páro, -
dormente
e do avesso,
encosto o ouvido
ao doloroso mundo:
- nada mais resta
(nem sequer a saudade).
quarta-feira, 29 de julho de 2015
O brilho dos azulejos
na tua boca de guardar segredos
e recordar o brilho dos azulejos
que lançaram raízes nos meus olhos.
Esperar,
__________suspensa _____________
do outro lado da tua própria distância
por um novo alargar de alma.
segunda-feira, 27 de julho de 2015
Retrato
no vértice do dia;
a minha nudez,
imagem trémula
quase delírio,
a tocar as tuas pálpebras
feitas universo.
Tudo o mais:
ruído.
quarta-feira, 22 de julho de 2015
Super-Realidade
e a tua boca desenhava os pássaros
que vinham fazer ninho
no espaço mais quente
por entre as minhas costelas.
Éramos jovens
criávamos o mundo com a idade que mais nos convinha.
Éramos mais: rei e rainha,
sem segredos ou futuros;
carne e luz,
bombas atómicas,
vértice dos tumultos da Humanidade,
vertigem
brilho
dois rumores à deriva no crepúsculo
e na poesia rachada dos candeeiros de rua.
Eu estendia-te os braços,
alicerces dançantes
que subias
para sentires o cheiro das nuvens;
tu cravavas-me os dentes nos ombros,
queimavas-me o rastilho da língua
e comias todas as minhas palavras
num gemido.
Do fundo do teu sorriso, a voz,
prenhe de uma super-realidade,
enquanto o mundo era tudo o que acontecia
por dentro dos vidros,
guardados fora do silêncio.
Espero. Sem nada esperar.
a total ausência de ilusões.
é preciso construir pontes de cio
por entre o vazio das avenidas:
só assim faremos sentido;
só assim surgiremos,
feitos lobos,
ao cheiro das nossas carnes
e ao melancólico modo de insinuarmos a eternidade
por dentro dos olhos.
tu virás;
virás porque não te espero.
porque não mais te quero.
e, quando vieres,
beijar-te-ei (como um vício),
para sempre fiel a esta nocão de sofrimento.
Espero (te),
- sem nada esperar -
deitada sob o meu próprio sol.
terça-feira, 21 de julho de 2015
A arte de te ser por dentro
segunda-feira, 1 de junho de 2015
por (entre) linhas
(eterna)
do teu amor
sobe-me as pernas
como um cão abandonado.
Suplicas (sem pensar):
devora-me.
derruba-me.
a sombra
- tão,
(e sempre¨)
agarrada, ao desenho desse teu corpo feito tigre
Morres os olhos
e agarras-me a carne:
é esta coisa canibal entre nós
que nos constrói os dias.
Esta coisa tão vermelha,
tão quente e
agora
tão
ausente.
Para sempre? - perguntas.
Desde sempre. - respondo.
por (entre) linhas
o meu peito é o deserto
onde a tua flor se cansou de morrer.
A tua língua como morada
domingo, 31 de maio de 2015
Os ninhos dos meus sorrisos
Despe-te.
Desfaz-te dos ninhos dos meus sorrisos no teu ombro:
o passado é coisa de se ficar nos pés
e os meus, estão já descalços de ti.
Essa tua doce forma de te abrires em flor
O teu quarto.
A tua cama.
A luz que nos dói os corpos exaustos
de sentirem a vida na carne dos outros:
as mãos nuas,
as costas enquanto areia,
e as tuas coxas:
__________ rios violentos
que suplicam pelos meus dentes,
e a eternidade nos teus braços
a pedir forma.
Há o quarto.
O teu quarto.
A tua cama.
Essa tua doce forma
de te abrires em flor
ao desejo da minha boca.
De novo,
a febre:
______ a tua boca de veludo, eternamente aberta
(ao meu nome)
e o amor,
puro como o ar,
como o céu dos teus olhos.
Estás aqui comigo?
- perguntas -
o rio revolto,
o fogo a crescer,
a violência invisível do mundo que começa
quando nos esquecemos de ler nas entrelinhas.
Sim - respondo.
____________________________
e a vida, acontece-me,
longe
das
tuas
coxas,
do azul dos teus olhos.
No quarto
(o teu quarto)
perco a sofreguidão
das tuas águas.
sábado, 23 de maio de 2015
Pesadelo
- o pesadelo:
os pássaros roubaram todo o ar respirável,
estou deitada
a terra molhada sobre o peito,
um vento vertiginoso
que teima em gemer-me nos lábios
como um poema pronto a parir.
Sempre este sangue,
esta carne impura a ganhar raíz
na desordem fluída do desejo:
- a saliva, o sémen, o suor,
a faca a abrir-me do avesso
ao que me estrangula
dos pulmões à língua apagada.
Tudo em mim, agora,
enterrado;
devolvido à terra num espasmo.
E o silêncio.
Os pássaros mudos
a espalharem o caos
e a noção exacta da argila por entre os dentes.
Engulo a ferrugem
e acordo.
É outro dia.
Outra eternidade.
quarta-feira, 20 de maio de 2015
Vem, meu amor
vem colher-me a boca madura
de antigas ausências e devora-me,
devora-me o eco do sol
que aprendeste nascer em mim.
O meu corpo continua.
Como um sonho.
Um reflexo.
Como se os corpos fossem coisas que vivem dentro das janelas,
à espera da Primavera.
Episódio Psicótico
no prolongamento da tua solidão?
A febre.
A febre.
A febre.
Depois mais nada.
Morre o delírio à boca do teu coração.
Dos pecados por baixo da pele
devagar,
como um segredo que se guarda por baixo da pele
o tempo suficiente para se tornar pecado.
















