sábado, 20 de fevereiro de 2016

A quantas das minhas falhas ensinei o cheiro das borboletas?

Abro os olhos.
A terra arde. Tantos sussurros. Tantas palavras inexactas.
Nenhuma chuva.

Estou aqui para morrer, penso.
Para me lavar dos pecados com a língua. A mesma língua com que lambia a tinta das asas das borboletas.
Era uma criança nesse tempo.
Uma criança deitada na erva, ao sol. Rasgava-lhes as asas e esperava por um grito. Um grito misterioso. Monstruoso. Porque a dor das borboletas deveria ser algo apocalíptico. O tipo de som capaz de rasgar abismos, pensava.
Capaz de destruir o sol.

Mas,
as minhas borboletas nunca gritavam.

Ficavam assim: seres meios, em pedaços.
Fragmentos.
Coisas partidas que nem tristes eram. Nem coisas. Nem eram. Ficavam. Apenas. E sujavam-me os dedos.
Com melancolia.
E as crianças não percebem a melancolia. Percebem a tinta que suja os dedos e a dor que se grita.

Por vezes, quando levava os dedos à língua, sentia soltar-se, nos cantos mais obscuros da boca, um perfume profundamente agoniado. Cheio do movimento dos espinhos a rasgarem os caules das rosas. Cheio de feridas que se abrem para fora. Sem sangue.
Quando esse Verão acabou soube, com toda certeza, que as borboletas não gritavam. Sequer sangravam.
As borboletas cheiravam.
A rosas.
Cheiravam profundamente. Com dor.



Fotografia por Fátima Abreu Ferreira

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Ensaio sobre a cegueira

tu pela escuridão
eu pela luz;
assim nos afastamos:
cegos e invisíveis;
eu, tão rente ao céu
tu, tão agarrado ao chão.


George Gardner

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

4.48

Apago a luz e ando em casa às escuras,
com a tua voz guardada na pele.
Cega, levo as unhas às cicatrizes
na procura dos teus versos.

Levanto a faca para a carnificina,
mas há outra boca,
outra luz,
outra música.

A mão dança,
abre-se como um corpo,
e a luz estala:
quem te inventou?
quem te inventou?
quem te inventou?

4.48 da manhã.
As televisões estão cheias de histórias
mas os teus poemas morreram-me na língua.

Cortemos os membros,
salvemos o espírito
longe
longe
longe
de toda a poesia.



domingo, 7 de fevereiro de 2016

Não há mais anjos a abrirem-te miradouros.

A tarde morre, dolente, no chão dos teus pés.
Lá fora, as ruas enchem-se de gente. Os turistas levantam as bocas à nostalgia da cidade, os restaurantes gritam fúrias que se colam aos tímpanos, os sem abrigo arrastam-se para os cantos, anunciando o frio que se esconde sob as janelas dos hotéis.
Dentro do escritório, fechas as cortinas e observas-te ao espelho: as rugas escavadas à força dos pequenos abismos, as agulhas diluídas nas artérias, os cabelos caídos como versos maduros no Outono.
40 anos de deserto; de fissuras de carácter e pálpebras enevoadas.
Confortavelmente dormente, dirias.
Não esqueces.
Não esquecerás (nunca) - escreves - enquanto queimas as fotografias que te perseguem, com o fogo lento da tua própria adoração.
Não sabes como continuar, concluis, matando mais um cigarro. O fumo estala-te na garganta como um tiro. Não há mais anjos a abrirem-te miradouros e apenas tu notas a tua ausência.

Inspira.
Fundo.
Como se quisesses mesmo viver.

Quando voltares a abrir os olhos, todo o mundo terá mudado.
Será de noite e as lâmpadas dos teus candeeiros terão deixado de respirar.
Olhar-te-ás, de novo, ao espelho, na procura da luz esbatida de uma polaróide e o fogo terá corrompido o seu abandono.

Restarás,
sozinho,
escuro,
cego
pelo teu próprio reflexo.

Nobuyoshi Araki -  from the polaroid series Kekkai (2014)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Folhas de Inverno (ou, "os dias sem ninguém")

É no chão, 
rente aos pés,
que as folhas lhe sussurram
a fome e a sede por trás do poema.

Acontece de noite,
sempre de noite,
esta dolorosa melodia.
Desce
misteriosamente,
como uma vertigem;
ele deita-se, encosta
os ouvidos ao chão
como quem cerra os olhos contra a violência
(é preciso a inocência. desesperadamente a inocência)
e encurva-se no sono.

São então as luas e os insectos,
essas aves nocturnas, nucleares,
que lhe agarram as raízes do cabelo
contra a boca aberta da alucinação.
Radioactivos,
minam-lhe os olhos até aos neurónios;
enriquecem-no;
devastam-no;
comem-lhe o mundo e saem ébrios,
como estrelas nascidas de uma emboscada.

Por dentro,
no espaço mais quente do sangue,
fica a violência do sussurro,
a lenta apropriação do pesadelo
e a misteriosa melodia das folhas de Inverno.


Vivian Maier, Central Park, 1954


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Sleep Deprived

- É preciso regras para os abismos Helena. E linhas. Linhas devidamente amontoadas, que é como quem diz, separadas pela mesma distância. Todas.

- Não é bem a mesma coisa.

- Não entendes. Temos que medir as linhas Helena. É peremptório que o façamos. Os abismos não acontecem entre dez milímetros. São cinco Helena. Cinco. Cinco mais cinco, mais cinco, mais cinco, entendes?

- Nunca fui boa a matemática.

- Mais cinco!
Não é Matemática Helena. É poesia. Se juntarmos muitos cincos milímetros e linhas finas e sem poeiras, sabemos que temos um bom lugar para um abismo. 
É muito simples, na verdade.

- Fátima, quantas horas dormiste hoje?

- Duas.
Tinha a cama cheia de abismos mas, não sabia da régua.



Gösta Åbergh, 1959


Natural born killer

because poetry 
is what we do when everything else fails

Regresso sempre a passos largos. 
Os tempos são de saudade, são de ilhas até onde ninguém sabe nadar, de sombras àcidas a galopar os dias que separam a minha mão do teu peito.
E alguém precisa comer as sombras. Alguém precisa morder toda esta morte experimentada.
Caio.
Enrolo-me no guarda-chuva e tropeço nos pés mas, não desisto.Não são as pernas que me levam, é este peito feito incêndio, acostumado ao outro lado do teu olhar.
Talvez sorria. Talvez agradeça a cumplicidade das casas que morrem na janela do comboio. Talvez me retire para dentro dos ossos e adormeça por instantes. Talvez faça qualquer coisa que encha os quilómetros que se suicidam na linha. Qualquer coisa enquanto espero o grito final, o urro angustiado da distância a sangrar nas fissuras dos meus punhos.
Nesse momento, no auge de toda a minha violência, recordar-me-ei que aprendi a suster a respiração e todas as minhas minúsculas angústias, e poderei, finalmente, inspirar.
Profundamente.
Na tua boca.


domingo, 31 de janeiro de 2016

Cortina Vermelha

Levanto-me e abro a cortina vermelha. Inspiro fundo. A manhã caiu molhada sobre as fotografias espalhadas no parapeito da janela.
Algo mudou lá fora.
Tudo cheira a luz e a sombra das coisas despiu-se de melancolias.
Pergunto-te se serei capaz de viver sob este efeito, este filtro simples do teu olhar. Estás deitado sobre a tua janela, sobre as casas a amanhecerem-te nas mãos (ninguém deveria viver tão alto, penso). Respondes: pedes que te deixe matar-me. Que é isso que se faz quando se ama.
E eu sorrio com a perfeição do teu fogo.
Nesse instante, decido: uma destas manhãs lanço âncoras no teu céu e deixo-me ficar a ver-te seres claridade. Talvez me voltes a fazer acreditar na linguagem límpida das palavras, talvez me construas pálpebras de luz, e me lembres que a fuga é possível; que o mundo não é, afinal, apenas este lugar onde nos esbatemos lentamente, como uma memória velha que não encontra lugar nas molduras em cima da cómoda.

Até lá,
deito-me na sombra desta cortina vermelha e espero que os dias me cubram os ombros de pássaros.
Um dia nascer-me-ão as asas dos caminhos até ti.


Saul Leiter - Red Courtain






terça-feira, 26 de janeiro de 2016

The point of abandonment

Rasgado no meio dos olhos,
o Homem arde as escadas,
fôlego a fôlego.

Os ombros pesam-lhe,
rasgam-se pelas costuras
com o peso da gangrena.

Está dentro 
dentro da carne,
exposto à cegueira do mundo.

A vida veio e partiu.
Os esgotos encheram-se com os seus ossos,
e nas veias,
apenas os suicídios lhe cumprem
a luz dos candeeiros envelhecidos.

Nada mais resta.
Nada mais respira.
Apenas os pés,
cheios de raiva e murmúrios
fazem doer a morte
de baixo para cima.

Um navio cego,
numa floresta negra.
e,
de repente,
todo o corpo dói,
todo o sangue se despede.

Adeus.
Adeus.
A
   Deus.


Fátima Abreu Ferreira, Porto, Bolhão, Janeiro de 2016

domingo, 24 de janeiro de 2016

Aduela

Estendes as mãos
à carne das minhas palavras.
Não há melancolia.
Apenas o silêncio,
incendiando as portas
- sangrentas -
dos nossos olhos.

Juntos,
atravessamos os espíritos da cidade.
A pele
aprendendo a salvação
na loucura da garganta;
as línguas
acordando como facas iluminadas.

Somos o Poema.
A loucura fundamental do sangue.

À nossa volta,
tudo se distancia.
Tudo procura o frio da cegueira,
a morte das estrelas.

Só nós,
pesados de fogo e vísceras,
carregamos qualquer coisa eterna.
Límpida.
Serena.

Larry Fink




segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

E desfazia-se a carne, quando o mundo acordava

É na minha mão,
na curva quente dos meus dedos
que dorme o fogo
das coisas àsperas,
e a luz incendiada da manhã.

Fátima Abreu Ferreira 

domingo, 10 de janeiro de 2016

Veneno de Domingo.

Como se fosse impossível continuar,
desprendi-me da urgência.
Engoli as noites que tornavam
ásperas
as minhas paredes;
deixei-me adormecer na sombra
da poeira que escondia nos cantos.

É Domingo.

Os muros cresceram-me à janela,
no lugar onde vendias
a boca por um incêndio.
Por entre as chuvas de Janeiro,
fizeram-se árvores,
fizeram-se silêncio;
agora, nenhuma luz entra
e nada mais se cumpre.

Nem mesmo a tua solidão.


Daido Moriyama

sábado, 2 de janeiro de 2016

Nova língua

Uma voz.
Os dedos.
As mãos movendo-se
por entre as nascentes dos ossos.

Dentro da chuva,
a palavra suplica uma tempestade,
queimadura branca
árdua,
ofegante raíz
na minha garganta.

Lembro-me
(ao longe)
de que sei respirar e
acendo as sombras;
ponho-me a inventar línguas
no desespero
- absoluto -
de ensinar à minha boca
um novo poema.



Daido Moriyama


quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

O abandono mais doce

E eis que a vida
se torna um sítio de silêncio;
um sítio calmo,
com as mãos despidas de espanto.

Foi de repente,
como um relâmpago:
um abraço estéril,
um sabor distante,
um cheiro a luz em qualquer lado
e minha boca - tão cheia
de nada para te dizer.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A sentimentalização das pedras

Pergunta:
                 Como morder a pedra
                 até que sangres o peito?

Resposta (possível):
                                    Esquecendo.

                                    
 

A chuva, no céu da minha boca

Lentamente
uma vaga metàlica
arrefece a noite,
as pàginas cheias
- plenas -
de esquecimento.

No céu da minha boca
começa a chover.

Lembro o tràfego
violento
por entre as costelas alargadas,
vão comércio
das tuas emoções,
e concluo:
não sobrevivemos às estações.

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Raízes

Começo a crescer raízes nos lugares mais inesperados. Os meus olhos insistem em agarrarem-se ao céu. Quando os fecho, sinto o céu a agarrar-se a mim.
Não é bonito.
Sequer lírico.
É, apenas, uma morte diferente.

Meteorologia

O caos
no acto das nossas bocas
em voo:
movimento terrível,
meteorologia dilatada
de um prenúncio que se desloca
para o interior da tempestade.

O rio muda de cheiro,

as árvores movem-se para dentro
e o meu vento, 
continua
violento,
denso
afeiçoado às folhas que te caem.



Ted Chin

domingo, 20 de dezembro de 2015

A noite mais longa

O silêncio é
afinal,
um desígnio simples:
um travo amargo
a comoções sem propósito,
uma espera lenta
por algo horrível
que me encha a boca de pólvora.

Nas mãos,
desponta uma lucidez sem espanto,
sem espuma,
ou redenção possível.

Este é o tempo de sujeições:
escorrego sob a lâmina
e apanho
- como posso -
todos os pedaços de mim.

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Nada mais.

E de repente, o Amor é esta ferida aberta.
Suja.
O casaco amarrotado no chão do quarto,
despedindo-se da luz
como como um lobo que uiva o som
do próprio sangue.

À medida do tempo, a música saiu-me dos pés
e as chuvas arrastaram-te as margens.

Nada mais existe.

Nem o teu rio incrédulo,
indigente nas minhas mãos,
nem a raiva
da tua tão escura matéria

domingo, 22 de novembro de 2015

Como nascer um beijo

E as abelhas romperam a noite
fazendo dos teus lábios
uma colmeia vermelha.
De manhã,
todas as flores terão morrido
à mercê dos nossos dentes.


sábado, 14 de novembro de 2015

"Vou quebrar esta mão do lembrar"

O movimento giratório
das luas em baixo da minha janela
deslocam o gesto hábil
com que te afasto a substância.

Tudo é reflexo, agora;
tudo é débil:
o teu rosto pela metade,
os meus olhos desfocados.
Demasiado tecto,
pouco corpo.

Conjugas a boca
como um verbo no futuro
e ignoras o eco que me nasce
como única hipótese de entendimento.

Amanhã,
olhar-me-ei ao espelho
e nada em mim
conseguirà principiar-te.

(título de Luís Quintais)

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Devagar, devagar - como quem morre.

Havia um homem
esquecido por dentro da casa.
Nos olhos,
pesavam-lhe as sìlabas desfocadas;
nas mãos,
a práctica oculta da rotação dos anos.

Era um homem do avesso,
desaprendido da linguagem
de se pregar ao peito e,
por entre a desarmonia dos ossos,
esticava o braço
para medir a distância
do coração à cabeça.

Quando os pássaros mortos
traziam as feridas
e o rumor de sangue nas asas,
descobria a fórmula da extinção dos dias
e apontava,
em absorvente melancolia,
o violento exercício
de ser abismo
na desarmonia das vísceras.


Wild Strawberies - Ingmar Bergman

sábado, 7 de novembro de 2015

Naufrágio

E quando reparas,
começo a gritar a maré,
ignorante das margens
da nossa lírica vertigem.

Ao longe,
o farol lança-me cordas à coluna aberta enquanto tu,
despenhado no obscuro poema,
fazes justiça ao naufrágio
e procuras,
cego,
as nossas raìzes
na violência das ondas salgadas.

O mar incendeia-te as pàlpebras.
O escuro dobra-se para frente
na procura da luz,
e tu,
animal vergado
no silêncio das tuas laboriosas âncoras, percebes
(tarde demais)
que nenhum dos nòs os dois
aprendeu a ser a ser barco.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Realização

O súbito abismo que é
olhar-te
e perceber
que amo a tristeza escura
onde deitas a cabeça
(dramaticamente).

(Larry Clark)

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Apontamentos

Apontamento (ou salvação):
                         pensar-te à exaustão.
                         transformar a tua espessura em intimidade olvidada.

sábado, 19 de setembro de 2015

Ingenuidade

Apontamento:
                       Escrever (nos)
                       na procura de um sentido, ou
                       talvez
                       uma salvação.

Um pálido princípio.

(profundamente pálida
esta força com que fecho a minha boca à tua).

É de manhã nesta casa de sempre.
Os brancos recortam-me
o monólogo nocturno do regresso, e eu
muito quieta,
espero a súbita metamorfose dos animais
que me guardam a cama.

Lá fora,
o mar grita e eu
descubro - em silêncio -
os bolsos cheios de cansaço.

Pesa-me, agarrada aos ossos
como uma nova carne,
a sanguínea arte de te adivinhar o peito:
nenhum homem deveria carregar
tantos abismos.

Incitação à fuga

Partir.

Fugir à noite que aprendeu a
arder-me junto aos olhos.
Estou sempre de partida - penso;
em perpétuo abandono
de tudo o que me habita.

Num plano recuado da existência
ergo as mãos mortas de raízes:
nada me pertence,
nada ecoa.

Aprendo as várias sombras
dos meus espaços
sem nunca lhes dar nomes
(as palavras carregam segredos
capazes de escavar abismos).

Partir.

Desprender-me
das cortinas dos teus dedos
e encontrar um lugar mais longe
que esta distância de morte no coração.

Ousar chegar,
e arriscar
o não regresso.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

O beijo

E é assim,
a boca na boca,
a boca na língua,
a língua na boca;
o beijo do avesso a arrancar a vontade
e os dedos a crescerem
na boca,
na boca da boca,
a boca
tão boca,
tão
-
boca
-
tão,
corpo deitado à procura da boca,
a tua boca
na minha boca
à procura da (minha) boca
tão dentro da tua boca,
tudo à mistura
(como deve ser)
a boca na boca
a boca da boca
no caminho
(simples)
da língua à boca
tão fundo da boca
quando,
por dentro
da (tua) boca
me arrancas
a boca
me comes a boca
e encontras
expectavelmente expectante
a tua
boca.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Uma espécie de fim

Em silêncio,
descobri
a gota sombria
na boca que me devorava
as mãos.

Descobri a seiva lenta;
o vazio a fazer-se por dentro
da noite inclinada,
e o tempo
a crescer a vontade
de calar os dedos.

Páro, -
dormente
e do avesso,
encosto o ouvido
ao doloroso mundo:
                                - nada mais resta
                                  (nem sequer a saudade).

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O brilho dos azulejos

Arriscar o peito (in) completo
na tua boca de guardar segredos
e recordar o brilho dos azulejos
que lançaram raízes nos meus olhos.

Esperar,
__________suspensa _____________
do outro lado da tua própria distância 
por um novo alargar de alma.


segunda-feira, 27 de julho de 2015

Retrato

A frescura exacta da tua língua
no vértice do dia;
a minha nudez, 
                       imagem trémula
                       quase delírio,
a tocar as tuas pálpebras
                       feitas universo.

Tudo o mais:
ruído.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Super-Realidade

O dia deitava-se sob a ponte
que te  nasceu das mãos
e a tua boca desenhava os pássaros
que vinham fazer ninho
no espaço mais quente
por entre as minhas costelas.

Éramos jovens
criávamos o mundo com a idade que mais nos convinha.
Éramos mais: rei e rainha,
sem segredos ou futuros;
carne e luz,
bombas atómicas,
vértice dos tumultos da Humanidade,
vertigem
brilho
dois rumores à deriva no crepúsculo
e na poesia rachada dos candeeiros de rua.

Eu estendia-te os braços,
alicerces dançantes
que subias
para sentires o cheiro das nuvens;
tu cravavas-me os dentes nos ombros,
queimavas-me o rastilho da língua
e comias todas as minhas palavras
num gemido.

Do fundo do teu sorriso, a voz,
prenhe de uma super-realidade,
enquanto o mundo era tudo o que acontecia
por dentro dos vidros,
guardados fora do silêncio.



"And we kissed, as though nothing could fall"





Espero. Sem nada esperar.

é preciso a falta de fé. 
a total ausência de ilusões. 
é preciso construir pontes de cio 
por entre o vazio das avenidas:  
só assim faremos sentido; 
só assim surgiremos, 
feitos lobos, 
ao cheiro das nossas carnes 
e ao melancólico modo de insinuarmos a eternidade 
por dentro dos olhos.

tu virás; 
virás porque não te espero. 
porque não mais te quero. 

e, quando vieres, 
beijar-te-ei (como um vício),
para sempre fiel a esta nocão de sofrimento.



Espero (te), 
- sem nada esperar -
deitada sob o meu próprio sol.

terça-feira, 21 de julho de 2015

A arte de te ser por dentro

A nudez dos meus pés abraçados aos teus
quando acordamos ao som das nossas costelas
a alargarem-se para (um)a eternidade.  

Sinto-me capaz de caminhar na tua boca,
apenas para aperfeiçoar a arte de te ser por dentro.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

por (entre) linhas

A constante
                    (eterna)
do teu amor
sobe-me as pernas
como um cão abandonado.

Suplicas (sem pensar):
                                  devora-me.
                                  derruba-me.
                                                    a sombra 
                                                                         - tão,
                                                                          (e sempre¨)
                                                                          agarrada, ao desenho desse teu corpo feito tigre
Morres os olhos
e agarras-me a carne:
é esta coisa canibal entre nós
que nos constrói os dias.
Esta coisa tão vermelha,
tão quente e
                      agora
                                tão
                                   ausente.
                                                Para sempre? - perguntas.
                                                Desde sempre. - respondo.

 por (entre) linhas
o meu peito  é o deserto
onde a tua flor se cansou de morrer.
                                                                                   
                                                             





A tua língua como morada

Guarda, na tua boca,
o segredo sedento dos meus olhos;
agarra
             - na ponta – 
                                  dos dedos                    
o vício dos meus joelhos entreabertos
e diz o meu nome:
                                 Violento.
                                 Voraz.
                                 Na selvagem repetição do delírio.

Depois pára.

Deixa o mundo apagar-se, e
faz da tua língua
a minha eterna morada.

domingo, 31 de maio de 2015

Os ninhos dos meus sorrisos

Há uma ideia à minha espera do lado de fora desta janela. É uma ideia simples, a imitar o teu corpo na violência selvagem desse vício de me amares.
Despe-te.
Desfaz-te dos ninhos dos meus sorrisos no teu ombro:
                                                                                      o passado é coisa de se ficar nos pés
                                                                                      e os meus, estão já descalços de ti.

Os dias são todos de morrer.

A cegueira abandonou-me
e eu não sei ver de olhos abertos.




Essa tua doce forma de te abrires em flor

Há o quarto.
O teu quarto.
A tua cama.
A luz que nos dói os corpos exaustos
de sentirem a vida na carne dos outros:
as mãos nuas,
as costas enquanto areia,
e as tuas coxas:
__________ rios violentos
                         que suplicam pelos meus dentes,
                         e a eternidade nos teus braços
                         a pedir forma.

Há o quarto.
O teu quarto.
A tua cama.
Essa tua doce forma
de te abrires em flor
ao desejo da minha boca.

De novo,
a febre:
______ a tua boca de veludo, eternamente aberta
                                                          (ao meu nome)
             e o amor,
             puro como o ar,
             como o céu dos teus olhos.

Estás aqui comigo?
- perguntas -
                      o rio revolto,
                      o fogo a crescer,
                      a violência invisível do mundo que começa
                      quando nos esquecemos de ler nas entrelinhas.

Sim - respondo.
                         ____________________________
                                                                                                       e a vida, acontece-me,

                                                                                                       longe

                                                                                                                  das
                                                                                                                         tuas
                                                                                                                                 coxas,

                                                                                                     do azul dos teus olhos.

                                                                                                     No quarto
                                                                                                     (o teu quarto)
                                                                                                     perco a sofreguidão
                                                                                                     das tuas águas.






           
       




sábado, 23 de maio de 2015

Pesadelo

A casa a encher o vazio dos ossos,
- o pesadelo:
os pássaros roubaram todo o ar respirável,
estou deitada
a terra molhada sobre o peito,
um vento vertiginoso
que teima em gemer-me nos lábios
como um poema pronto a parir.

Sempre este sangue,
esta carne impura a ganhar raíz
na desordem fluída do desejo:
- a saliva, o sémen, o suor,
a faca a abrir-me do avesso
ao que me estrangula
dos pulmões à língua apagada.

Tudo em mim, agora,
enterrado;
devolvido à terra num espasmo.

E o silêncio.

Os pássaros mudos
a espalharem o caos
e a noção exacta da argila por entre os dentes.

Engulo a ferrugem
e acordo.
É outro dia.
Outra eternidade.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

Vem, meu amor

Vem, meu amor;
vem colher-me a boca madura
de antigas ausências e devora-me,
devora-me o eco do sol
que aprendeste nascer em mim.

O meu corpo continua.

O meu corpo continua.
Como um sonho.
Um reflexo.
Como se os corpos fossem coisas que vivem dentro das janelas,
à espera da Primavera.

Episódio Psicótico

Quantos corpos dormem 
no prolongamento da tua solidão?

A febre.

A febre.

A febre.

Depois mais nada.
Morre o delírio à boca do teu coração.

Dos pecados por baixo da pele

Gosto de me sussurrar na tua boca,
devagar,
como um segredo que se guarda por baixo da pele
o tempo suficiente para se tornar pecado.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Do silêncio das minhas raízes

Abri os olhos.

Alguém trouxera a terra
lavrada com o fogo e sangue das mãos abertas 
ao desespero de quererem cobrir o lado de dentro da carne. 


Na boca,
um eterno sabor de melancolia;
no céu,
o imprevisto silêncio das minhas raízes.


The rehearsal place, Sally Mann, 1989




quarta-feira, 18 de março de 2015

Solipsismos #1

Continuo a vomitar-te, numa agonia viral - simples e sem vida.

Como morrer um nome

Hoje, remexi-te o caos por entre os escombros da manhã e vi-te, cega, no meio da vindimada luz dos teus dias. Sentaste-te na varanda a olhar as crisálidas, como se a água fosse a matéria das tuas mãos.
Inerte. 
Morta além de ti.

Ao fundo, chamei-te.
Confesso: não sei se te queria invocar ou apenas saber; saber que o teu nome ainda tem forma dentro dos meus lábios. Ainda me preenche os espaços invernosos do corpo e antecipa a Primavera por dentro dos ossos.
Chamei-te.
E a minha boca encheu-se de silêncio; como se a minha saliva tivesse perdido o sentido das tuas letras. A sala cresceu de sossego e tu, expatriada de qualquer identidade, continuaste: cega, a olhar as crisálidas secas e a fingir que a água é coisa que coisa que faz com os olhos.

Na minha boca, nada mais restou.
Nem sequer o teu cadáver.