a veia aberta por onde respiravam todas as bocas,
comprida, aguda, prenha
no sopro irreparável do lado esquerdo.
![]() |
| Coimbra, Agosto de 2016 |
![]() |
| Fotografia - Fatima Abreu Ferreira, Lisboa, 2016 |
![]() |
| Ingmar Bergman Summer with Monika (1953) |
![]() |
| Elliott Erwitt |
![]() |
| Fatima Abreu Ferreira, Março, 2016 |
![]() |
| Fátima Abreu Ferreira, Março, 2016 |
Ainda chove nas ruas.
Uma água misteriosa,
um instinto que explica todas as sombras.
É tempo de milagres,
alguém lembra
(longinquamente)
e a água cai-me na boca
num peso lúbrico,
um incêndio azul.
- Acredita - dizes
como quem pede o fogo.
Não há,
em ti,
gestos ou palavras
incapazes de rasgar
a desordem da minha garganta;
e deitas-me,
muda
sobre todos os meus punhais.
Là fora
a lua rebenta
as ruas alagam-se
e o eco das nossas bocas corre
como um rio
até ao fundo dos esgostos.
"Devastemos,
devastemos,
devastemos."
![]() |
| Fotografia por Fátima Abreu Ferreira |
![]() |
| Nobuyoshi Araki - from the polaroid series Kekkai (2014) |
![]() |
| Vivian Maier, Central Park, 1954 |
![]() |
| Saul Leiter - Red Courtain |
![]() |
| Larry Fink |
![]() |
| Daido Moriyama |
![]() |
| Daido Moriyama |
E eis que a vida
se torna um sítio de silêncio;
um sítio calmo,
com as mãos despidas de espanto.
Foi de repente,
como um relâmpago:
um abraço estéril,
um sabor distante,
um cheiro a luz em qualquer lado
e minha boca - tão cheia
de nada para te dizer.
Pergunta:
Como morder a pedra
até que sangres o peito?
Resposta (possível):
Esquecendo.
Lentamente
uma vaga metàlica
arrefece a noite,
as pàginas cheias
- plenas -
de esquecimento.
No céu da minha boca
começa a chover.
Lembro o tràfego
violento
por entre as costelas alargadas,
vão comércio
das tuas emoções,
e concluo:
não sobrevivemos às estações.
Começo a crescer raízes nos lugares mais inesperados. Os meus olhos insistem em agarrarem-se ao céu. Quando os fecho, sinto o céu a agarrar-se a mim.
Não é bonito.
Sequer lírico.
É, apenas, uma morte diferente.
O silêncio é
afinal,
um desígnio simples:
um travo amargo
a comoções sem propósito,
uma espera lenta
por algo horrível
que me encha a boca de pólvora.
Nas mãos,
desponta uma lucidez sem espanto,
sem espuma,
ou redenção possível.
Este é o tempo de sujeições:
escorrego sob a lâmina
e apanho
- como posso -
todos os pedaços de mim.
O movimento giratório
das luas em baixo da minha janela
deslocam o gesto hábil
com que te afasto a substância.
Tudo é reflexo, agora;
tudo é débil:
o teu rosto pela metade,
os meus olhos desfocados.
Demasiado tecto,
pouco corpo.
Conjugas a boca
como um verbo no futuro
e ignoras o eco que me nasce
como única hipótese de entendimento.
Amanhã,
olhar-me-ei ao espelho
e nada em mim
conseguirà principiar-te.
(título de Luís Quintais)
![]() |
| Wild Strawberies - Ingmar Bergman |
E quando reparas,
começo a gritar a maré,
ignorante das margens
da nossa lírica vertigem.
Ao longe,
o farol lança-me cordas à coluna aberta enquanto tu,
despenhado no obscuro poema,
fazes justiça ao naufrágio
e procuras,
cego,
as nossas raìzes
na violência das ondas salgadas.
O mar incendeia-te as pàlpebras.
O escuro dobra-se para frente
na procura da luz,
e tu,
animal vergado
no silêncio das tuas laboriosas âncoras, percebes
(tarde demais)
que nenhum dos nòs os dois
aprendeu a ser a ser barco.
Apontamento (ou salvação):
pensar-te à exaustão.
transformar a tua espessura em intimidade olvidada.